DELIM GÁS

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11 de janeiro de 2016

Pesquisas provam que repetência não traz benefício algum ao aluno

Ninguém mais aceita viver com taxas de inflação tão altas quanto as que tivemos no passado. Claro que este não é o único índice utilizado por economistas para avaliar um país, mas, quando o aumento dos preços no Brasil ameaça ultrapassar a meta, como sucede agora, não faltam alertas de que precisamos corrigir a rota. Na educação, deveríamos demonstrar incômodo semelhante com alguns indicadores. Um deles é o da repetência.

A exemplo da inflação, o Brasil já ostentou nesse indicador taxas tão absurdas a ponto de figurar entre os dez piores países do mundo. E não faz muito tempo. Num ranking a partir de cálculos da Unesco para um conjunto de 120 países no ano 2000, o Brasil, com 25% de repetentes, aparecia atrás apenas de Ruanda, São Tomé e Príncipe, Madagascar, Congo, Togo, Camarões e Burundi.

Na década de 80, chegamos ao disparate de reprovar seis em cada dez crianças na primeira série, quadro bem resumido pelo físico Sergio Costa Ribeiro (1936-1995) como uma verdadeira “pedagogia da repetência”. Se ao menos nossos indicadores de aprendizagem fossem bons, poderíamos ter alguma desculpa para taxas tão altas. Mas este nunca foi o caso.

Cálculos feitos pelo pesquisador Ruben Klein mostram que, em 2013, 10% dos alunos eram repetentes na educação básica, taxa que chegava a 19% no 1º ano do ensino médio. Melhoramos, mas ainda estamos longe de uma média aceitável. Entre 61 países comparados em 2012 pela OCDE no exame internacional Pisa, o Brasil registrava o sétimo pior indicador de reprovação, com 36% dos jovens de 15 anos tendo repetido ao menos uma vez em toda sua trajetória. Na maioria dos países ricos, esse percentual não passa de 10%.

Fazer o aluno repetir de ano, além de ser uma péssima estratégia de aprendizagem, custa caro. Somente do Fundeb (principal fundo de financiamento da educação pública no Brasil), o pesquisador João Bacchetto estimou que gastamos R$ 8,8 bilhões (9% do total do fundo em 2012) por causa da repetência.

Quando várias redes no Brasil, inclusive a do Rio, tentaram introduzir uma política de ciclos para enfrentar o problema, houve gritaria geral contra o que se identificou na época como mera aprovação automática de alunos. A crítica de que não podemos simplesmente passar crianças de ano sem a preocupação de fazer com que elas aprendam é justíssima. Quando indicadores de reprovação ou evasão pioram, porém, não esboçamos indignação parecida. E eles pioraram, por exemplo, entre 2007 e 2014 (período em que o sistema de ciclos foi modificado) na rede municipal carioca, segundo artigo publicado no site Latitudes pelos pesquisadores da UFRJ Vitor Calafate, Anita Caldeira e Daniel Lopes de Castro. A cidade de São Paulo registrava, até 2013, curva oposta à do Rio, mas a reprovação por lá também voltou a crescer em 2014 após a prefeitura paulistana ter, igualmente, reformulado seu sistema de ciclos. (leia o post dos pesquisadores aqui)

No livro “Visible Learning”, sem tradução no Brasil, o pesquisador da Universidade de Auckland John Hattie faz uma síntese de mais de 800 meta-análises (estudos mais robustos por compilar várias pesquisas numa mesma análise) sobre variáveis que afetam o aprendizado. Das 138 estratégias listadas no livro, a maioria não teve impacto, algumas se mostraram eficazes, mas apenas cinco foram identificadas como negativas por, em vez de beneficiarem, só prejudicarem o aluno. Entre elas está a reprovação, que afeta principalmente os mais pobres e aumenta consideravelmente a evasão. Como resume Hattie: “É difícil encontrar outra prática educacional em que a evidência científica é tão inequivocadamente negativa”.

Antônio Gois é colunista do GLOBO e comentarista do Canal Futura de educação, tema que cobre desde 1996.

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