DELIM GÁS

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2 de abril de 2017

Escolas já começam a alfabetizar crianças 'com letras da internet'

Folha de São Paulo - A forte presença no dia a dia de crianças de recursos tecnológicos como tablets, joguinhos e aplicativos de telefones celulares, além dos vídeos musicais com legendas, tem ampliado rapidamente uma mudança na forma de alfabetização das escolas.

Para se encaixar à realidade dos pequenos, que muitas vezes já chegam à sala de aula reconhecendo as letras, aprender a ler e a escrever agora pode começar com a chamada letra bastão ou de fôrma: a letra da internet.
Não existem sinais de total abandono da letra cursiva no Brasil, o que já acontece em países europeus e nos EUA, mas ela já não é prioridade absoluta de ensino e é aprendida em um segundo momento em parte dos colégios. No colégio Santa Amália, na Saúde (zona sul), as salas do primeiro ano do ensino fundamental são decoradas com letras bastão, também tidas como letras de imprensa.

Das anotações da professora no quadro à cartilha da molecada, tudo remete à grafia com que os alunos tem familiaridade seja por meio do teclado do computador dos pais, seja pelos joguinhos eletrônicos e pelas animações.

"A letra bastão traz para a escola o mundo real da criança, a letra que ela vê no dia a dia e que, com a tecnologia, se tornou ainda mais presente, mais referência", diz Adriane Ideta, coordenadora pedagógica do colégio.

Segundo ela, quando a criança estiver alfabetizada, inicia-se o ensino da letra cursiva que, "culturalmente, é ainda forte no Brasil". "É função da escola dar à criança ferramentas para que ela decida, no futuro, que tipo de letra prefere para escrever e que faça isso corretamente, sem vícios de escrita."


O colégio Dante Alighieri, na região da av. Paulista (zona oeste), segue o mesmo princípio pedagógico do Santa Amália, mas há escolas que optam por começar com o ensino da cursiva (leia abaixo) e as que ensinam os estilos diferentes ao mesmo tempo.
ASSINATURA

Francisca Maciel, doutora em educação pela UFMG e especialista em alfabetização, explica que é mais fácil alfabetizar pela letra bastão ou, como ela prefere chamar, "de imprensa, maiúscula".

"Quando a criança está no início do processo de aprendizado, é mais fácil distinguir as letras, saber qual é qual, quando se usa a de imprensa, que também tem o traçado mais simples e é favorável à coordenação motora", diz.

Para a especialista, aprender a letra cursiva posteriormente não traz nenhum prejuízo aos alunos. Mas é importante que ela seja ensinada em algum momento.

"A cursiva é um desenho, não acrescenta nada especial, mas é mais rápida e dá uma certa identidade. Sem a manuscrita, como ficariam as assinaturas?".

Já Leopoldo Leal, doutor em design pela USP e que já trabalhou apresentação de tipografias na rede municipal, "o [estilo] cursivo nada mais é que o reflexo de uma época em que se usava pena e nanquim para escrever".

"Hoje em dia, digitamos muito mais do que escrevemos. Quantos e-mails e mensagens trocamos e quantas anotações à mão fazemos no mesmo dia? A justificativa para não abolir o cursivo na alfabetização é a não inclusão digital total e também a pressão de pais que querem que as crianças sejam educadas exatamente como eles foram."

O pensador Umberto Eco, em artigo de 2009 para a revista cultural "Opera Mundi", mostrou preocupação com o fim da letra manuscrita.

Em trecho do texto, ele diz que "é verdade que as crianças escreverão mais e mais em computadores e telefones celulares. Entretanto, a humanidade está aprendendo a redescobrir como esporte e prazer estético muitas coisas que a civilização havia eliminado como desnecessário".

O MEC informou que livros didáticos de alfabetização, aprovados pelo Programa Nacional do Livro Didático, em geral, apresentam propostas para a inserção, de maneira gradativa, do reconhecimento e uso dos diferentes tipos de letras que as escolas têm autonomia para decidirem como irão alfabetizar.

RESISTÊNCIA

O caminho para a alfabetização dos cerca de 270 alunos da rede de colégios vicentinos de São Paulo é "complexo e difícil", nas palavras de sua própria coordenação pedagógica, que defende a maneira de ensinar com a letra cursiva.

A linha pedagógica dessas escolas, a primeira fundada há 108 anos, segue o que consideram tradição,"sem apelos ao modismo", e baseia-se em pesquisas que indicam que a letra manuscrita estimula a cognição e a reflexão.

"Sem a quebra das letras, que acontece com a letra bastão, que exige tirar a mão do papel, o aluno dá sequência ao pensamento, ao raciocínio, à elaboração de ideias", afirma Soreny de Espírito Santo, 54, pedagoga no colégio São Vicente de Paulo, na Penha, zona leste.

Especializada em alfabetização, Soreny defende que, se é verdade que as crianças se identificam com a tecnologia, também o é que eles têm curiosidade para saber a maneira como os pais escrevem no papel.

A opção pela letra manuscrita não quer dizer que os colégios vicentinos tenham aberto mão do apoio tecnológico na educação. As escolas possuem, inclusive, aulas de robótica.

"As coisas que são boas e dão resultado devem ser preservadas. Temos a tecnologia em nosso dia a dia nas escolas e discutimos seus benefícios, porém aquilo que capacita bem o nosso aluno, que dá resultado, não deixamos de lado", diz a pedagoga. Os alunos, porém, não deixam de aprender a letra bastão.

"A criança é como uma esponja e absorve o conhecimento rapidamente, é aberta à aprendizagem. Às vezes o adulto é quem acha tudo complicado", diz.